Muito tempo atrás era um Preto-Velho
Muito tempo atrás...
Muito
tempo atrás...Era uma noite de inverno! O frio se fazia mais que presente
naquelas paragens...muito campo, muitas matas, apenas agravavam o momento, não
permitindo sequer um local seguro para abrigo e calor!
Na Casa Grande, o calor das lareiras e a força da música se
fazia presente. Nem isso mais era permitido aos negros, um pouco de diversão e
calor. A grande senhoria tinha os proibido de qualquer tipo de manifestações
“rudimentares”...
Muitos negros doentes, se localizavam em busca de ajuda da
grande senhoria,até mesmo um garoto novo, muito enfermo, mas era em vão, pois,
segundo a senhoria, alma de negro, não tem querer...Mesmo com a sabedoria dos
pretos, haviam situações que nem isso adiantava...
O tempo passou...naquele inverno muitos negros haviam
morrido, devido à falta de condições básicas de sobrevivência!
Para a alegria dos negros, a estação dos “sofrimentos
naturais” havia acabado, e a primavera se apresentava...Linda, bela,
completando os campos com flores e frutos...
Um belo dia, numa noite estrelada, os negros todos
agrupados, alegres ao observar as estrelas, recebem a visita do grande senhor.
Imediatamente, o estado de alerta tomou conta de suas almas: O que seria dessa
vez?
Em prantos, o grande senhor, dirigiu-se ao negro mais velho
da senzala, e em suplica pediu:
- Salve meu filho!
O
negro, simples e com dores na alma, pensativo, aceitou a proposta do grande
senhorio.
Chegando a Casa Grande, dirigiu-se diretamente ao quarto do
enfermo, e após grande analise, detectou que o menino havia sido mordido por
uma cobra e ardia em febre.
Imediatamente, o negro volta à Senzala, e pedindo auxilio a
algumas negras que lá se encontravam, entra mata à dentro em busca de ervas que
pudessem salvar o garoto.
Depois de algum tempo, retorna a Casa Grande com um
emplasto de ervas, um pouco de barro virgem, e um pano branco, que apesar de
velho, encontrava-se muito limpo. Ao chegar no quarto do garoto, o negro pede
aos pais que se retirem. O pai, desconfiado e revoltado, nega-se a deixá-lo
sozinho com seu filho. O negro com toda humildade do mundo diz:
- O Sinhô só tem
uma opção, ou seu filho morre!
O
Grande Senhor, muito a contra gosto, se retira dos aposentos do filho, dando
espaço para que o negro pudesse trabalhar em seu filho. Depois de horas sem
fim, o negro sai do quarto onde o filho do grande senhor se encontrava e diz:
- O garoto há de
meroiá!
Seguindo o seu rumo, o negro sai agradecendo a Deus pela
oportunidade.
Os
dias passaram, e o quadro do menino, cada vez mais, piorava. A febre não cedia,
o garoto delirava, tentando falar algo, porém não conseguia, os suores tomavam
conta do seu corpo, enfim, ele agonizava à espera da morte.
O pai, revoltado com a situação, e desconfiado que o negro
tinha envenenado seu filho, vai até o capataz, e dá ordens para que ele desse
uma surra no negro que tinha feito aquilo com o filho dele. No mesmo momento, o
capataz vai até a senzala, e espanca o negro, quase até a sua morte.
Sangrando, numa agonia sem fim, o negro olha pro capataz e
diz:
- Diga pro Sinhô,
que eu salvei seu fio, coisa que ele num fez pro meu meninu! E que apesar de
tudo, eu perdôo ele...
Após essas palavras, o negro, esvaindo-se em sangue,
descansa, de uma vida tão sofrida.
Passado dois dias da morte do negro, o garoto começa a
melhorar, e cada vez mais, vai se fortalecendo, até curar-se por completo. Após
bem reestabelecido, o pai chega próximo ao garoto e pergunta o que ele tanto
tentava dizer quando doente e não conseguia. O garoto em palavras singelas
responde:
- Eu tentava falar
com aquele negro, que me salvou, e de quem o senhor não teve piedade, e a vida
tirou!
O pai perplexo, pergunta ao garoto como ele poderia falar
com um negro, morto, e que nem alma
tinha?
Novamente o garoto muito sábio, responde:
- Aquele negro tinha alma sim meu pai, e após
sua morte veio me visitar e disse:
- Fio, ame sempre a todas as pessoa como
iguais, pruque pra Deus, nosso pai, num existe fio diferente um do outro...
-
E pai, aquele negro saiu com lágrimas nos olhos, rumo aos céus, cantando uma
cantiga que dizia mais ou menos assim:
O
SINHÁ, O SINHÁ, O SINHÁ, SEGURA A CHIBATA NÃO DEIXA BATER, FAZ UMA PRECE PRÁ
NEGO MORRER, QUE NEGO NÃO PODE MAIS SOFRER....



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